O papel do ecodoppler no diagnóstico das doenças venosas

Agosto 2015

 

O Ecodoppler se constitui atualmente na principal ferramenta de diagnóstico de doenças venosas e é imprescindível para exercer a prática da Angiologia e Cirurgia Vascular com qualidade. A necessidade de oferecer ao paciente o diagnóstico preciso de seu problema já na primeira consulta justifica o uso desse método no consultório médico. Dessa forma, o paciente não necessita procurar uma clínica para realizar o exame após a consulta. Além disso, a realização deste exame pelo mesmo especialista que irá indicar o tratamento posteriormente é de fundamental importância, pois assim o enfoque dado ao exame torna-se mais específico para o problema que será tratado.

 

O exame de Ecodoppler pode avaliar tanto o sistema de veias superficial (especialmente veias safenas e suas tributárias) como o sistema profundo (veias localizadas abaixo do revestimento dos músculos). Permite também visualizar as comunicações entre esses dois sistemas, nas junções das safenas com as veias femoral e poplítea e nas veias perfurantes.

 

A análise de um problema venoso com o uso do Ecodoppler determina diretamente a conduta que será realizada. Por exemplo, se o paciente apresenta um inchaço na perna, o exame pode confirmar ou excluir de imediato o diagnóstico de trombose venosa profunda. Sabemos que o atraso no tratamento dessa doença pode levar a complicações graves, inclusive ao óbito. 

 

Mas é no diagnóstico de varizes que vejo o Ecodoppler como o maior determinante do sucesso do tratamento. É de extrema importância o mapeamento correto das veias a serem tratadas, especialmente o estudo das veias safenas. Através desse exame, podemos verificar se há uma alteração no funcionamento dessas veias, o que chamamos de refluxo.

 

O refluxo é a principal alteração que procuramos em um exame de Ecodoppler para a pesquisa de varizes. O refluxo ocorre quando o sangue que está seguindo pelas veias das pernas em direção ao coração retorna parcialmente pela veia, ou seja, o fluxo vai em direção ascendente (subindo), mas há um refluxo com a descida do sangue. Isso se deve a uma alteração no funcionamento das válvulas que existem nas veias, seja porque elas estão danificadas, ou porque o calibre da veia está aumentado. Se houver refluxo em veias importantes e este não for tratado, geralmente o tratamento somente das varizes ou dos vasinhos não tem bom resultado.

 

O principal aspecto técnico a se considerar é que toda pesquisa de refluxo deve ser realizada com o paciente em pé. Quando o paciente é examinado somente deitado, o examinador pode deixar passar trechos inteiros de veias danificadas, porque ao deitarmos diminuímos a pressão do sangue dentro das veias e facilitamos o fluxo venoso.

 

Na pesquisa do refluxo, o primeiro local que pesquisamos no sistema superficial é a junção da safena com a veia femoral. Nela se encontra uma válvula, que quando danificada, pode gerar um grave refluxo que pode se extender por toda a safena, levando à sua dilatação e ao surgimento de varizes de grosso calibre. Além disso, visualizamos veias que se juntam à safena nessa região e podem trazer refluxo da região da pelve, por exemplo.

 

O exame segue com a análise de toda a safena interna, que se localiza na face interna da coxa e da perna. Em qualquer trecho, a safena pode receber o sangue de uma outra veia superficial ou perfurante com refluxo, tornando-se insuficiente a partir daquele ponto.

 

Veias que acompanham trajetos semelhantes ao da safena e se comunicam com ela, chamadas safenas acessórias, devem ser também avaliadas como pontos alternativos do escoamento do refluxo.

 

A pesquisa da safena externa, localizada atrás da panturrilha, também é bastante importante, tanto em sua junção com a veia poplítea como no restante do seu trajeto. Por vezes notamos veias que ligam uma safena à outra, e caso uma esteja com refluxo, ela pode acabar transmitindo esse refluxo para a outra.

 

As veias perfurantes, que comunicam diretamente veias profundas com veias superficiais, podem também estar relacionadas com varizes de grosso calibre e devem ser suspeitadas nestes casos. Na maioria das vezes, são apenas veias de drenagem do sistema superficial para o profundo, mas quando apresentam refluxo, podem ser uma fonte importante para o ressurgimento de varizes após uma cirurgia.

 

As demais varizes também são acompanhadas em seus trajetos para identificar a ligação delas com os pontos de possível refluxo citados acima.

 

Pesquisamos também o refluxo no sistema profundo, pois pode ser a origem das varizes (causa secundária, por vezes após uma trombose profunda) e podem estar relacionadas a sintomas importantes. 

 

Após um exame de ecodoppler realizado de forma correta e completa, torna-se mais fácil compreender a origem das varizes de cada paciente e elaborar estratégias individualizadas de tratamento. Além disso, o acompanhamento a longo prazo dos pacientes que se submeteram a tratamentos para varizes previne a recidiva da doença venosa, ou seja, permite que problemas sejam identificados antes do retorno importante dos vasos indesejáveis.